Mercado de Crédito Privado – 1T26

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O 1T26 foi marcado por elevada instabilidade nos cenários doméstico e externo. No Brasil, o Copom iniciou o ciclo de cortes da Selic, em movimento mais cauteloso do que o precificado anteriormente pelo mercado, diante da deterioração das expectativas inflacionárias. As projeções do Boletim Focus para o IPCA de 2026 foram revisadas para cima, atingindo 4,9%, refletindo a manutenção do ritmo elevado de gastos públicos e os efeitos do conflito no Oriente Médio. Ainda assim, o Ibovespa renovou sua máxima histórica em diversas ocasiões no trimestre, sustentado pelo expressivo fluxo estrangeiro, que totalizou R$ 56,5 BI(1) no 1T26 e superou todo o saldo positivo do ano anterior, em movimento de rotação global de portfólios em direção a mercados emergentes. Esse fluxo, somado à postura mais restritiva do BC e à perda generalizada de força do dólar, contribuiu para a apreciação de 14,0% do real frente ao dólar nos últimos 12 meses.

Retorno acumulado de indicadores do mercado local 1 - Mercado de Crédito Privado - 1T26

IDA-Geral (Índice de Debêntures ANBIMA): índice que espelha o comportamento de uma carteira teórica de dívida privada, composta pela totalidade das debêntures marcadas a mercado com prazo superior a um mês.
IMA (Índice de Mercado ANBIMA): índice formado por carteira de títulos públicos com composição similar à da dívida pública brasileira.
IMA-B5 e IMA-B5+: formado por NTN-Bs (Notas do Tesouro Nacional – Série B ou Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais) com vencimento de até cinco anos (IMA-B5) ou vencimento acima de 5 anos (IMA-B5+).

Expectativa CDI e IPCA - Mercado de Crédito Privado - 1T26

Ao final do 1T26, o Boletim Focus apontava IPCA de 3,9% para 2026, próximo do centro da meta de 3,0%. Desde então, as projeções foram revisadas para cima por mais de dez semanas consecutivas, atingindo 4,9% em mai/26 e superando o teto da banda de tolerância de 4,5%.

Fonte: BCB, B3, ANBIMA, Análise Ártica

Nota: (1) Segundo dados da Elos Ayta, o indicador registrou o maior patamar desde 2022; e

(2) Utilizado a projeção da ANBIMA para o IPCA referente a mai/26.

Mercado Primário de Renda Fixa

As ofertas encerradas no mercado de capitais somaram aproximadamente R$ 180 BI no 1T26, alta de 16% sobre o mesmo período de 2025. O avanço foi liderado pelos fundos híbridos e de renda fixa, que totalizaram R$ 45 BI, impulsionados pelos FIDCs (+38%) e pela retomada dos FIIs (+147%), favorecidos pela expectativa de queda de juros e por uma visão mais otimista para o mercado imobiliário. Os instrumentos de renda fixa permaneceram próximos a R$ 122 BI, com as debêntures seguindo como principal instrumento e totalizando R$ 99 BI, enquanto as notas comerciais alcançaram R$ 9 BI. Em contrapartida, CRIs e CRAs recuaram 28% e 39%, respectivamente, pressionados pela menor disponibilidade de lastro imobiliário e pela maior seletividade ao risco do agronegócio. A renda variável também ganhou tração, com aproximadamente R$ 13 BI em ofertas via follow-ons.

Ofertas encerradas por modalidades de ativos - Mercado de Crédito Privado - 1T26
Volume de emissoes de instrumentos de renda - Mercado de Crédito Privado - 1T26

Fonte: ANBIMA, Análise Ártica.

Nota: (1) Considera notas promissórias, Cédula de Produtor Rural – Financeira (CPR-F), certificados de recebíveis (CR) e Certificados de Direitos Creditórios do Agronegócio (CDCA).

Mercado Primário de Renda Fixa

O 1T26 foi marcado por maior estresse no mercado de crédito, com o aumento da percepção de risco diante do recorde de +5.900 empresas em recuperação judicial, limitando a capacidade de pequenas e médias empresas captarem em condições competitivas. O volume médio das emissões de capital fechado recuou 51%, passando de R$ 690 MM no 1T25 para R$ 338 MM, efeito amplificado por 90 operações no período, ante 75 no anterior. Em paralelo, as companhias abertas elevaram o ticket médio de R$ 983 MM para R$ 1,1 BI. A parcela de recursos alocada ao pagamento de dívidas recuou de 21% para 16%. Ainda assim, o mercado mantém fôlego no financiamento de projetos intensivos em capital, sustentado pelo avanço de investimentos em infraestrutura, que responderam por 46% das emissões no trimestre.

destinacao de recursos debentures - Mercado de Crédito Privado - 1T26
capital social emissao de debentures - Mercado de Crédito Privado - 1T26

Fonte: ANBIMA, Debentures.com, Análise Ártica

Mercado Primário de Renda Fixa

No 1T26, o prazo médio das debêntures permaneceu relativamente estável, com leve recuo em relação ao 4T25, situando-se em 7,6 anos. As notas comerciais seguiram com movimento semelhante, com prazo médio em 3,6 anos. Em um cenário de juros persistentemente elevados, parcela relevante das emissões indexadas ainda apresentam taxas nominais superiores a 16% a.a. O volume captado no trimestre alcançou R$ 99 BI em debêntures e R$ 9 BI em notas comerciais, refletindo a continuidade da demanda por funding de longo prazo. As notas comerciais consolidaram-se como instrumento relevante de financiamento, em particular para companhias sem acesso ao mercado de debêntures, ainda que a base de subscritores permaneça concentrada em participantes ligados à oferta. De qualquer forma, há o início da participação de fundos de investimento nesse mercado, que já representaram 16% do volume tomado no primeiro trimestre.

emissoes em CDI debentures - Mercado de Crédito Privado - 1T26
image - Mercado de Crédito Privado - 1T26

Fonte: CVM, ANBIMA, Análise Ártica

Nota: (1) Valores consideram debêntures e debêntures incentivadas.

Mercado de Debêntures Incentivadas

Historicamente, os primeiros trimestres apresentam menor volume de emissões frente aos demais períodos do ano. Ainda assim, o 1T26 apresentou o segundo maior volume da séria histórica para o período, com as debêntures incentivadas alcançando R$ 44 BI e participação recorde de 43,8% no total emitido em debêntures. O instrumento mantém papel central no financiamento de projetos de infraestrutura, com os setores de energia elétrica, transporte e saneamento concentrando 83% das emissões, com destaque para energia elétrica em 59%, em linha com o pipeline de concessões e a continuidade dos investimentos em transmissão e geração. No mercado secundário, o volume negociado seguiu em trajetória de expansão, totalizando R$ 99 BI no 1T26, alta de 27% sobre o 1T25, refletindo o apetite dos investidores por ativos isentos de IR e a maior liquidez do instrumento.

emissao de debentures incentivadas - Mercado de Crédito Privado - 1T26
representatividade de cada setor nas debentures - Mercado de Crédito Privado - 1T26

As debêntures incentivadas seguem sendo um instrumento importante para o financiamento de determinados setores da economia, pelo fato de serem isentas e gerarem um incentivo para a compra, refletindo a alta liquidez dos títulos no mercado secundário.

Mercado Secundário de Renda Fixa

No 1T26, o mercado secundário de crédito privado registrou forte abertura dos prêmios, com o Idex-CDI atingindo o pico de 2,5%. O movimento foi desencadeado pela sequência de recuperações extrajudiciais protocoladas por companhias como GPA, Raízen e Andrade Gutierrez, que envolvem conjuntamente mais de R$ 80 BI em dívidas a renegociar nesses processos, somada à alta da inadimplência do Sistema Financeiro Nacional, que chegou a 4,44% em mai/26. Desde então, o índice recuou gradualmente para 1,83%, ainda acima da média dos últimos doze meses. Esse cenário se refletiu em ampliação generalizada dos spreads tanto nas operações em IPCA+ quanto nas indexadas ao CDI, em linha com a deterioração da percepção de risco corporativo e o aumento dos prêmios exigidos pelos investidores.

evolucao do spread diario cdi - Mercado de Crédito Privado - 1T26
spread anbima medio - Mercado de Crédito Privado - 1T26

Fonte: ANBIMA, XP, Idex CDI, Análise Ártica

Nota: (1) Distressed companies: Aeris, Braskem, CBD, Elfa Medicamentos, Kora Saude e Viveo;

(2) Referente a 21/05; e

(3) Taxa média de fechamento em 22/08 para o 2T25, em 24/11 para o 3T25, em 03/02 para o 4T25 e em 21/05 para o 1T26;

(4) Equipav Saneamento e Aegea.

Panorama de Fundos de Investimento

No 1T26, os fundos de investimento reverteram o cenário de resgates observado em 2025, com captação líquida de R$ 177 BI no trimestre, frente aos R$ 9 BI do mesmo período do ano anterior. O movimento foi liderado pela renda fixa, que atraiu R$ 126 BI, mais que dobrando o volume do 1T25, diante da expectativa de início do ciclo de cortes da Selic. FIPs e ETFs também se destacaram, com R$ 18 BI cada, enquanto os FIDCs somaram R$ 8 BI. Ações e multimercados, historicamente pressionados, desaceleraram os resgates frente ao 1T25, refletindo a retomada gradual do apetite por risco. O patrimônio líquido total atingiu R$ 11,1 TRI, com expansão generalizada entre as categorias de ativos. Em contrapartida, o CDB/RDB foi a única classe em retração, com recuo de 4%, pelos recentes casos de liquidação decretados pelo BCB, que geraram migração de ativos.

evolucao do patrimonio liquido - Mercado de Crédito Privado - 1T26
captacao liquida de fundos - Mercado de Crédito Privado - 1T26

Fonte: ANBIMA, Análise Ártica.

Nota: (1) Considera ajustes retroativos divulgados pela ANBIMA no histórico;

(2) Em moeda constante do último mês, deflacionado pelo IGP-DI; e

(3) DPGE, CCB/CCCB, Opções e Notas promissórias.